Diário de Viagem

Olá Confrades. Não tenho dúvidas que a maioria de vocês irá concordar comigo: Viajar é uma das melhores coisas da vida! Pouco importa o destino; o simples fato de preparar uma mala, organizar um roteiro e sair da rotina já são suficientes para despertar a curiosidade, provocar o espírito e alegrar a alma. A quantidade (e qualidade) de informação, de cultura e de experiências que a gente absorve nessas viagens é impressionante. Não há “Barsa” ou “Wikipédia” que concorra.

Eu acabei de voltar de uma viagem fascinante. Minha fiel escudeira e, companheira para todas as aventuras, aceitou o desafio de conhecer algumas cidades do centro da Europa viajando, quase que exclusivamente, de trem. Isso mesmo, TREMMMMM. Nosso roteiro começava em Frankfurt, seguia para Berlin, Praga, Budapeste, Viena, Salzburg e terminava onde começou. Literalmente, um giro pelo centro europeu.

Entrada de Krems.

Vinhedos do Wachau

Degustação direta no produtor

Se quando eu falo em trens, vocês pensam naquelas “marias fumaças” de filmes de faroeste ou naqueles comboios horrorosos de alumínio escovado que servem as cidades satélites de São Paulo ou Rio, chamados de trens suburbanos, lotados de pessoas; esqueçam. Não é nada disso. Estou falando de trens de primeiro mundo: modernos, pontuais, confortáveis, imaculados e muito melhores que a primeira classe de aviões. Essas maravilhas viajam a mais de 200kms por hora e você nem percebe, nada balança, não existe barulho nem interferência. É como uma flecha que está cortando o ar e que irá atingir seu destino no momento marcado, sempre.

Degustação no Domaine Wachau.

Weissenkirchen.

Bom, vamos deixar os trens de lado, pois eles não são o objetivo principal desta crônica. Quem sabe numa próxima… Enfim. A viagem foi espetacular, cada uma das cidades se mostrou deslumbrante do seu jeito: moderna, funcional, aristocrática, monumental, descolada ou histórica. A sensação que tivemos é que a todo o momento estávamos sendo seduzidos por algo. A trilha sonora dessa aventura não poderia ser melhor: Jazz e música Clássica em cada esquina. Chet Baker, Miles Davis, Puccini, Liszt, Beethoven, Mozart e tantos outros para ninguém botar defeito.

Dentro dessa viagem, existia outra aventura planejada. Há muito tempo que eu desejava conhecer a região vinícola austríaca denominada Wachau (fala-se “Várrau”). Já havia lido inúmeras vezes que essa era uma das regiões mais lindas do planeta. Fui conferir. Alugamos um carro e partimos sem hospedagem definida.

O Wachau é uma pequena região, razoavelmente próxima de Viena, que acompanha o curso do rio Danúbio (“Donau” em alemão). O trecho mais fascinante situa-se entre as cidades de Krems e Melk; onde o rio serpenteia pelas montanhas e florestas, fazendo surgir cenários dignos de quebra-cabeças de 5 mil peças. Tirar foto aqui é fácil, basta apontar para qualquer lado e pronto; você logo se sente um Márcio Scavone ou um Araquém Alcântara. É impossível traduzir em palavras a beleza do lugar e é aí que a gente compreende como a fotografia é fundamental.

Nesse trecho, as margens do rio e as encostas das montanhas estão tomadas de vinhedos que dividem espaço com minúsculos vilarejos de gente simples, trabalhadora e curiosa conosco. O ciclo da videira determina o ritmo da vida das vilas e das próprias pessoas. Escolher um hotel/pousada foi um delicioso sacrifício, as vilas de Dürnstein, Weissenkirchen e Spitz situam-se bem no meio do trecho mais interessante e são verdadeiras obras de arte arquitetônicas. Aqui o Românico, o Gótico e o Barroco convivem em harmonia, com ligeiro destaque para o último estilo. Ficamos numa pousada charmosa em Spitz e fomos o assunto da cidade por três dias.

Esta região da Áustria é famosa por produzir alguns dos melhores vinhos brancos do país. Ácidos, minerais, florais e com álcool bem integrado; esses vinhos me surpreenderam muito. As castas dominantes são: Riesling, Roter Veltliner, Pinot Blanc e Grüner Veltliner. Esta última apresenta potencial para ser a grande aposta austríaca, seus vinhos variam do muito bom ao espetacular. Os produtores reconhecem a incrível capacidade dessa casta e criaram uma classificação que diferencia os vinhos com relação ao corpo e estrutura em 03 níveis: Steinfeder (leves), Federspiel (corpo médio) e Smaragd (encorpados). Gostaria de ter comprado dezenas de caixas, mas a Lufthansa me avisou que eu não viajaria de volta ao Brasil num avião cargueiro. (rindo) Paciência.

Visitamos vários produtores: Prager, Domaine Wachau, Jamek, Joseh Höfinger, Holzapfel, Lagler e Jäger. Degustamos muitos vinhos e cervejas (um caso à parte na viagem) em bares e tabernas acompanhados das fantásticas lingüiças e salsichas com mostarda. Tudo perfeito, tudo mágico; assim é o Wachau. Partimos em direção a Salzburg, nos despedimos do Danúbio na cidade de Melk. Como recompensa, ele nos presenteou com a fantástica visão da monumental Abadia Beneditina em estilo barroco no alto de uma colina, dominando tanto a cidade quanto o rio. Paramos o carro, faltou ar, sabíamos que seria o início de outra aventura…

Confrades, numa próxima vez, contarei a minha experiência com os vinhos Tokaji em plena Budapeste. Saúde a todos e bons goles. Sempre.

Entrada da vinícola Prager

Abadia Beneditina de Melk

Coluna Malucos por Vinho – André Monteiro

www.clubemalucosporvinho.com.br

 

 

Crônica para um Final de Ano Vinhateiro.

Hoje tenho uma surpresa para vocês, convidei o sommelier André Monteiro, colunista do ” CLUBE MALUCOS POR VINHO ”  que pesquisa o que há de interessante no mercado, sempre com a intenção de apresentar novos vinhos e grandes achados  para escrever uma matéria especial sobre vinhos e harmonização, para as Festas de Fim de Ano. Tenho certeza que irão adorar!!!!!!

Caros Confrades, as festas de final de ano sempre foram (e continuarão sendo) momentos especiais. Época de reflexão, de renovação e, principalmente, de carinho com o próximo. Não é de forma intencional ou consciente, mas vivemos estes dias com mais tolerância, somos mais amáveis, carinhosos e bondosos. Aproveitamos para estreitar os laços familiares e de amizade. Essas mudanças também se verificam nas mesas, nas ceias e nos cardápios de celebração.

Sala de Degustação de Vinho do Porto em Gaia.

É nesta época que nossos costumes à mesa refletem bem as influências que recebemos dos nossos antepassados (europeus, africanos, asiáticos…) além dos “gostos adquiridos” de outras culturas. Desde a organização, decoração, até a figura do Papai Noel. Nesse contexto, o cardápio e as bebidas da festa assumem um papel fundamental e uma questão muito interessante vem à tona: O que servir com o que? Ou, melhor dizendo, como harmonizar vinho e comida?

Garanto a vocês, combinar esses dois mundos muitas vezes é complicado. São milhares de pratos e vinhos que precisam ser analisados, entendidos e combinados de forma tal que a gente obtenha o melhor resultado na hora de degustá-los. “Eno-Compatibilização” é o nome que se dá a esse exercício delicioso, quase divino. Por conceito, podemos dizer que é a capacidade de combinar vinhos e comidas de modo que se realce ao máximo cada um, sem que, se sobreponham. Bonito isso, não? O casamento entre um determinado vinho com um prato específico é perfeito quando ambos se enriquecem. Mas, às vezes, essa tarefa se mostra muito difícil e complicada.

Mas vamos voltar para as nossas festas de final de ano. Em primeiro lugar, não podemos esquecer que boa parte das nossas tradições tem sua origem no Hemisfério Norte, que nesta altura do campeonato, está um frio de rachar. Enquanto isso, aqui no Brasil, é alto verão! Não tentem servir aqueles pratos pesados e calóricos, com vinhos potentes e alcoólicos. Isso irá transformar a sua ceia numa batalha gastronômica onde alguns bravos soldados poderão parar no hospital.

Minha sugestão é mesclar pratos tradicionais com algumas novidades ou ingredientes típicos do verão. Para visualizar melhor essa proposta, vamos imaginar a nossa Ceia de Natal. Vamos dividir o serviço entre: Aperitivos/Entradas, Primeiro Prato, Segundo Prato e Sobremesas.

Enquanto esperamos os convidados chegarem, recomendo servir frutas secas, canapés, presuntos crus e queijos macios. Tenham cuidado com os ingredientes muito doces, não queremos estragar a refeição. O vinho perfeito para este momento é o espumante. Pode ser branco ou rosé, tanto faz; mas tem que ser seco (“Brut”). Nos dias de hoje, existem muitas regiões que produzem excelentes bolhas; eu recomendo: Espumantes nacionais, Cavas espanholas, Franciacortas e Proseccos italianos, além, é claro, dos Champagnes (sempre franceses).

Sonho de qualquer Gourmand.

Com os termômetros marcando uns 30 graus, minha sugestão para o primeiro prato seria algo leve e refrescante, que conseguisse alimentar e, ao mesmo tempo, manter nossos sentidos apurados para tudo que ainda virá. Não tenham medo de inovar. Eu recomendo um Gaspacho (típica sopa fria espanhola à base de tomates) ou um Ceviche de peixe ou frutos do mar. Em ambos os casos, devido à acidez marcante, vocês poderiam manter o serviço do espumante ou abrir um vinho branco fresco, frutado e sem passagem por madeira. Minhas sugestões de uvas são: Chenin Blanc (‘Vouvray”), Sauvignon Blanc chileno, Verdelho espanhol ou um Pinot Grigio italiano.

A “Pièce de Résistance” seria um prato mais substancioso, encorpado. Existem muitas opções de carnes, desde a bovina até as aves. Eu serviria um Peru Assado, recheado de frutas secas e especiarias. O molho seria uma mistura do caldo do assado com vinho branco, especiarias e um toque de creme de leite. Para acompanhar, um cuscuz marroquino com castanhas portuguesas, além do arroz branco. Ops, deu água na boca, né. Os vinhos que melhor combinam seriam os tintos de corpo médio para menor, com acidez destacada, álcool moderado e pouca marcação de madeira. Várias uvas (castas) atendem aos requisitos, em especial: Pinot Noir, Barbera, Dolcetto, Tempranillo (Jovem) ou Zinfandel.

Cacho de Touriga Nacional no Douro.

Na hora das sobremesas, eu ficaria com o clássico dos clássicos: Rabanada de Panetone ao Vinho do Porto acompanhada de Sorvete de Figo Seco ou de Passas ao Rum. E para harmonizar, um delicioso vinho de sobremesa fortificado: Porto Tawny, Madeira Malmsey Doce, Jerez Pedro Ximénez, Marsala Superiore Dulce, Banyuls ou Tokaji Aszú. Pronto, aí está a nossa Ceia de Natal.

Ufa, quantos detalhes. Mas… E a Ceia de Réveillon, como fica? Fácil, muito fácil. Seja qual for o cardápio, celebre com espumantes, muitos espumantes. Nada combina melhor com a passagem do ano do que o estourar das garrafas e as bolhas se perdendo na nossa boca. Mas, se você não consegue visualizar isso, cuidado! Ou você estará trabalhando, ou então, tem algo de muito errado com a sua festa. (rindo) Queridos confrades, desejo a todos um excelente Natal, um Réveillon espetacular e um 2012 cheio de boas aventuras para se viver. Saúde !!!

Final de tarde preguiçoso na vinícola

Sommelier André Monteiro, colunista do " CLUBE MALUCOS POR VINHO"